30 set, 2014

A Meditação sobre as Realidades do Além

30 set, 2014

Por: Ahmed Ismail

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso.

A benção e a paz sobre o Nobre Mensageiro Mohammad e sobre sua purificada linhagem.

Diz Allah, O Majestoso, no Alcorão: “É ELE (ALLAH) QUEM VOS DÁ VIDA E ENTÃO VOS FARÁ MORRER E EM SEGUIDA VOS RESTITUIRÁ A VIDA…” (22: 66)

Em sua existência o ser humano tem sobre si o decreto de 4 fases: o útero, a vida terrena, a vida no Barzakh (pós-morte) e a vida no akhirah (eternidade).

A vida terrena é como um tênue e curtíssimo fio suspenso na eternidade, e nesta limitadíssima extensão de tempo temos a oportunidade preciosa de despertar nossa consciência para a realidade maior, que não conhece limitação de tempo ou espaço, a qual se denomina AKHIRAH (eternidade).

ALLAH, Exaltado Seja, dotou o humano das faculdades necessárias para a perfeita compreensão desta realidade. Enviou Profetas e Mensageiros revelando a Ciência Correta (Orientação Divina), para que a humanidade se guiasse sobre a realidade que está além dos sentidos. De fato, sem esta orientação correta, o homem permanece como alguém que esteja confinado num quarto escuro; que não consegue conceber a vastidão e a luz além dos limites das paredes que o cercam. Em tal condição de ignorância, o homem faz do seu quarto “o seu mundo”, concentrando sua atenção e suas expectativas apenas no que está ao alcance dos seus sentidos. Evidencia o Alcorão: “DISTINGUEM SOMENTE A APARENTE VIDA TERRENA; PORÉM ESTÃO ALHEIOS QUANTO A OUTRA VIDA.” (30; 7)

Comumente vivemos segundo a interpretação de nossos sentidos e não nos percebemos do quanto isso é superficial. Não obstante, todos sabemos que é inevitável o confronto com uma realidade que transcende toda nossa compreensão: a morte. A perturbadora constatação que o homem é a única criatura que tem consciência de que morrerá cria nele uma constante inquietação. Por mais que se negue a raciocinar sobre sua existência, o homem convive com essa ameaçadora consciência da morte. Assim, desde os tempos mais remotos e em todas as sociedades humanas desenvolveu-se uma filosofia voltada a diversão, ao prazer e a ocupação mental para afastar essa perturbadora realidade. No mundo moderno adotou-se um estilo de vida voltado a satisfação constante dos sentidos e desenvolveu-se todo um conjunto de idéias que visam ocultar ou suavizar a inevitabilidade da morte. Uma curiosa característica que diferencia a sociedade moderna das sociedades tradicionais é que, a reverência e a ritualização da morte que cumpriam um papel de suavizar o sofrimento e estabelecer um laço comunitário, na sociedade moderna e individualista tendem a perder qualquer significado. Em seu dia a dia o homem moderno, ainda que cercado por todos os avanços tecnológicos de sua época confronta-se com a morte à sua volta e então choca-se, atemoriza-se por um instante para logo depois retornar a condição alienante, envolvido em seus planos, negócios, prazeres, viagens, programas de lazer para manhã ou para daqui um ano, como se a possibilidade da morte não existisse até que ele próprio se confronta com o inevitável.

Diz o Altíssimo no Alcorão: “NÃO VOS DEMOS UMA VIDA LONGA PARA QUE QUEM DE VÓS QUISESSE REFLETIR PUDESSE FAZÊ-LO?…” (35: 37)

Compreendemos que ainda que curta a existência terrena em comparação a eternidade, diante da percepção humana, esta vida constitui tempo perfeitamente hábil para que o homem reflita e busque a orientação divina. Antes que a morte chegue e com ela a trágica constatação da perda das oportunidades proporcionadas pela vida. Consta que o Mensageiro de Allah (saas) tenha dito: “A mais inteligente das pessoas é a que mais recorda sua morte” e também “Recordai a morte! Juro por aquele em cuja mão está minha vida que se soubésseis o que eu sei, certamente teríeis passado menos tempo a rir e mais tempo a chorar”.

Diante da realidade maior que se descortina com a morte, o homem lamenta o tempo perdido nas ilusões, rivalidades, no acúmulo de bens e em todas as outras atividades próprias da vida terrena. Evidencia o Alcorão: “(DISSE XAITAN)… JURO QUE OS ALUCINAREI NA TERRA E OS COLOCAREI TODOS NO ERRO; SALVO DENTRE ELES OS TEUS SERVOS SINCEROS.” (15: 39 e 40)

Este poder de sedução de Xaitan, abrilhanta para o homem tudo o que o afasta da senda divina, levando-o a se empenhar naquilo que o levará a ruína espiritual no AKHIRA (vida eterna), e a desprezar as ações que resultariam em sua bem-aventurança após a morte física.

Entretanto, não há nenhum obstáculo intelectual ou prático entre o homem e a Orientação Divina. Consciência da realidade da morte não significa algum tipo de negação mórbida da vida. É comum ouvirmos o argumento de algumas pessoas carentes de entendimento que, acreditam que “viver” significa somente usufruir sem limites ou restrições e que, qualquer outro modo de pensar seria um cerceamento da liberdade individual. O Islam nos ensina que o usufruir dos benefícios da vida é necessário e que isto não significa transformarmos a existência numa contínua busca de prazer e diversão. A opinião dessas pessoas se baseia num erro fundamental: de que a vida não possui nenhum propósito. O Islam nos orienta a consciência de que a vida possui um alto propósito, e que este propósito pode ser compreendido por aqueles que acatam a Orientação Divina e que em outras palavras, adotam a Mensagem Divina como guia para sua vida. ALLAH promete sua proteção aos que se apegam firmemente a orientação divina e se empenham sinceramente nesta senda, livrando-os das trevas da ignorância e guiando-os para a luz, assim evidencia o ALCORÃO: “ALLAH É O PROTETOR DOS FIÉIS; É QUEM OS RETIRA DAS TREVAS E OS CONDUZ PARA A LUZ; AO CONTRÁRIO, OS INCRÉDULOS, CUJOS PROTETORES SÃO OS SEDUTORES QUE OS ARRASTAM DA LUZ, LEVANDO-OS PARA AS TREVAS, SERÃO CONDENADOS AO INFERNO ONDE PERMANECERÃO ETERNAMENTE.” (2: 257)

É esta condição fundamental da vida terrena de oportunidade de escolha que a torna preciosa. A todo momento de nossa vida temos diante de nós a senda correta e os muitos caminhos da perdição espiritual e a despeito de todos os fatores externos a decisão final sobre nossas ações pertence a nós mesmos. Disse o Mensageiro de Allah (saas): “Não há uma só noite em que o anjo da morte não chame os mortos nos túmulos e pergunta-lhes o que lamentam hoje quando vêem vivamente e conhecem o além. Então dizem os mortos: “Nós lamentamos e invejamos os que crêem, que estão nas mesquitas a orar enquanto que nós não, estão a conceder Zakat enquanto nós não, estão a jejuar durante o Ramada enquanto nós não, estão a doar em caridade o que excede as necessidades de suas famílias, enquanto nós não o fazemos”. Este Hadíth demonstra a real escala de valores pela qual nossa vida neste mundo será pesada e é esta escala que se tornará evidente para a pessoa, no momento em que as ilusões materiais chegarem ao fim com a morte física.

Imam Ali (as) em um dos seus sermões disse: “Lembrai: vosso hoje pode ser o único tempo que terás para esperar, anelar e trabalhar e depois de hoje pode haver o grande vazio da morte, quem quer que obre durante este período de espera, a morte não lhe causará dano. Lembrai, quem não se beneficia do Din cai presa fácil de Xaitan e quem a orientação não pode conduzi-lo ao caminho reto termina em calamidade e em destruição. Lembrai que está decretado que a vida siga e a vós se aconselha que obreis para o mundo vindouro com pensamentos corretos e obras piedosas”.

Portanto, o benefício do Din está ao alcance dos que meditam sobre suas ações, o mundo que o cerca e, sobretudo, quanto as palavras de Allah no Alcorão, luz para a compreensão das questões desse mundo e do além; e esta compreensão é de grande valia para a ação correta e o aperfeiçoamento da fé.

Imam Mussa Ibn Jáfar (as) disse: “Quem não se examina e julga a si mesmo a cada dia, não é um dos nossos”. Este princípio moral preserva o homem de muitas das ilusões engendradas por Xaitan e verdadeiramente aquele que JULGA A SI MESMO e que se auto-repreende encontra o caminho para as boas ações. O incremento disso é a compreensão correta da verdadeira escala de valores que devemos adotar em nossa vida. No decorrer de nossa curta passagem neste mundo somos ensinados a adotar os mais diversos padrões e escalas de valores originados das crenças e idéias humanas, alguns dizem-nos que o conforto e a riqueza são os mais elevados valores da vida, outros que a cultura e a erudição representam esses valores, e muitas outras escalas de valores nos são ensinadas. Entretanto poucos de nós questionamos sobre qual seria a escala de valores que ALLAH Exaltado Seja, teria estabelecido quanto a nossa vida e nossas ações. Não obstante a nossa razão nos diga que com a morte nossas escalas de valores também morrem.

Mesmo o mais materialista dos homens aceita a verdade de que a morte iguala a todos e anula as distinções forjadas pelo homem. Ainda que a estupidez humana tenha criado diferenças que são carregadas até o túmulo, todos somos forçados a concordar que todas as pretensões e convenções humanas terminam aí. A escala de valores de ALLAH, a qual transcende a morte e vigora na eternidade difere absolutamente de todos os padrões humanos de julgar a vida. Essa escala não exige do homem uma total renúncia da vida material como muitos insensatos preconizam, longe disso, essa escala exige que o homem cumpra suas obrigações mundanas, busque o ganho de vida lícito, que viva neste mundo e que satisfaça suas necessidades lícitas, apenas que não faça de tudo isso o Objetivo último de sua existência, que não tenha o bem estar mundano como uma única e exclusiva meta.

O Islam nos ensina que o adotar o bem-estar mundano como objetivo último da existência, negligenciando a Realidade Maior da eternidade é um estado de absoluta ignorância, e aqueles que adotam tal modo de viver e pensar são os que provam o pior destino quando o inevitável os alcança.

Evidencia o Alcorão:

“AQUELES QUE NÃO CRÊEM NA OUTRA VIDA CONSTITUEM O PIOR EXEMPLO…” (16: 60)

“E AQUELES QUE NEGAM O ALÉM TEMOS PREPARADO PARA ELES UM CASTIGO DOLOROSO.” (17:10)

O negar a realidade do Akhira não se resume a uma negação formal baseada em descrença, mas sim é a atitude de negligenciar os Preceitos Divinos buscando como meta única da existência o satisfazer nossas próprias paixões, caprichos e desejos, elegendo-os como ídolos para os quais todos os nossos esforços e todo nosso tempo é devotado. Nessa escala divina de valores com a qual nossas vidas e nossas ações serão pesadas, absolutamente nada das pretensões humanas é levada em consideração. Nas fiéis tradições consta que o Mensageiro de ALLAH (saaw) tenha dito: “Quando um homem morre cessam todas suas obras, com exceção de três: a caridade ininterrupta, o conhecimento útil que tenha deixado a outrem ou um bom filho que peça a ALLAH por ele”. Invariavelmente, o ser humano torna-se cativo de suas ações ao fechar os olhos paras este mundo, deixando para trás todas as aparências externas e todas as escalas de valores forjadas pela vaidade humana.

Imam Ali (as) disse: “Existem três amigos para um muçulmano. O primeiro amigo é o que diz: estarei contigo, quer você esteja vivo ou morto, este é sua Ação. O segundo amigo é o que diz: eu estarei contigo até a entrada de seu túmulo, então eu o abandonarei, este é seu filho. O terceiro amigo é o que diz: eu estarei com você até a sua morte, e este é a sua riqueza (seus bens), que pertencerão a seus herdeiros quando ele morrer”.

Parte Dois

Diz Allah, O Altíssimo, no Alcorão: “SABEI QUE A VIDA TERRENA É SOMENTE JOGO, DIVERSÃO, VAIDADES, MÚTUA VANGLÓRIA E RIVALIDADE REFERENTE A MULTIPLICAÇÃO DOS BENS E DOS FILHOS; É COMO A CHUVA QUE COMPRAZ OS CULTIVADORES POR VIVIFICAR A PLANTAÇÃO, LOGO, COMPLETA-SE SEU CRESCIMENTO E A VERÁS AMARELADA E TRANSFORMADA EM FENO. NA OUTRA VIDA HAVERÁ CASTIGOS SEVEROS, E A INDULGÊNCIA E COMPLACÊNCIA DE ALLAH, QUE É A VIDA TERRENA SENÃO UM PRAZER ILUSÓRIO?” (57: 20)

Este versículo sagrado discorre de modo esplêndido e conciso sobre a natureza da vida neste mundo. O versículo se inicia detalhando as atividades nas quais a maioria dos seres humanos gastam seu tempo de vida e sua motivações. Em seguida, declara que tudo isso está incluso em um ciclo efêmero que termina com a morte, e então, apresenta a realidade maior da vida eterna: a punição ou a misericórdia divina. A efemeridade deste ciclo seria por si só um motivo relevante para que o humano meditasse sobre o verdadeiro objetivo de sua existência e revisse sua escala de valores. Um certo número de questões perturbadoras tem sido sistematicamente afastadas da mente do homem: Qual a finalidade de minha existência? Fui criado para trabalhar de sol a sol para juntar coisas que a morte, inevitavelmente tirará de mim? Se o objetivo último de minha vida é comer, beber, dormir, acasalar e procriar porque foi me dada a razão se mesmo um cão não precisa dela para cumprir tudo isso? Estas e outras perguntas do mesmo teor surgem a um homem que tenha desenvolvido alguma sabedoria sobre si mesmo, e a menos que ele as considere seriamente não alcançará nenhum amadurecimento real. Algo que é profundamente perturbador para o homem que tenha sua consciência absorvida neste mundo, é a luta constante pelo acúmulo de bens e a luta ainda maior que segue a primeira pela manutenção do que juntou. A insegurança quanto ao dia de amanhã e o confronto com a realidade de que tudo lhe será tirado pela morte. Imam Assadeq (as) disse: “Aquele que devota seu coração a este mundo estará sujeito a 3 condições: preocupação sem fim, insaciáveis desejos e fútil esperança”.

O Din (Religião) a seu turno, dispõe o coração humano ao equilíbrio e ao trato dos assuntos deste e do outro mundo segundo o seu grau de importância. Visa libertar o homem das algemas deste estado de ignorância que o arrasta e o faz viver como um escravo de todas as formas de ilusão até que a morte o alcança. Sobre este estado de inconsciência Imam Ali (as) comentou certa vez: “Quantos miseráveis (dignos de pena) estão com os dias contados, porém, estão laboriosamente buscando os bens (deste mundo)”.

O Islam nos alerta quanto à necessidade de reflexão e o esforço no aproveitamento do tempo que temos a nossa disposição. O Mensageiro de Allah (saas) disse: “Aproveitai 5 oportunidades antes de 5 coisas: tua juventude antes de tua velhice, tua saúde antes de tua doença, tua riqueza antes de tua pobreza, teu tempo livre antes de tua ocupação e tua vida antes de tua morte.” De fato, o tempo é o ítem fundamental da existência humana. Lamentavelmente, poucos usam de sabedoria para administrá-lo e terminam por adotar um estilo de vida onde o tempo lhes possui e não o contrário. O Mundo Moderno caracteriza-se por seu mecanismo sutil de arregimentar o tempo. Somos condicionados a sacrificar o nosso tempo em atividades fúteis de tal modo que, a menos que despertemos para a realidade jamais encontraremos o tempo para o esforço espiritual e para a reflexão sobre nós mesmos e sobre o Akhirah (eternidade).

O Islam prescreve o caminho do equilíbrio, do bom senso de não negligenciar nem as atividades da vida prática referentes ao ganho da vida e do cuidado com nossos bens e com nossos dependentes, e muito menos negligenciar nossas obrigações com Allah e o esforço pelas recompensas eternas. Imam Assadeq (as) tratou desse ponto dizendo: “O melhor auxílio a outra vida é esta”. E disse também: “Não é um dos nossos aquele que desiste deste mundo em prol do outro e nem o que desiste do outro mundo em prol deste”.

Diz Allah no Alcorão: “TODO SER PROVARÁ O SABOR DA MORTE. NÓS VOS EXPERIMENTAMOS COM O MAL E O BEM PARA VOS POR A PROVA E SEREIS TRAZIDOS ATÉ NÓS”. (21: 35)

Assim, todas as circunstâncias, alegrias, tristezas, triunfos e fracassos são aspectos desta prova que é sucedida pelo retorno a Allah. O fim de todas as medíocres expectativas desta vida terrena, de todas as rivalidades e vaidades, distinções, ambições e posses é seguido da confrontação consigo mesmo; com a realidade maior que se descortina com a morte, onde todas as máscaras caem e só resta aquilo que somos e fizemos. Ao descrente e ao iníquo esta confrontação é mais dolorosa. Evidencia o Alcorão: “SE PUDESSES VER OS INÍQUOS NA AGONIA DA MORTE QUANDO OS ANJOS COM AS MÃOS ESTENDIDAS LHE DISSEREM: ENTREGAI VOSSAS ALMAS! HOJE, SER-VOS-Á INFLIGIDO O CASTIGO AFRONTOSO POR HAVEREM DITO MENTIRAS ACERCA DE ALLAH E POR HAVERDES SE ENCHIDO DE SOBERBA DIANTE DE SEUS VERSÍCULOS.” (6 : 93)

Tanto quanto a vida terrena, no que se refere a sua realidade física é o efeito do que foi concebido na vida intra-uterina, o estado do homem após a morte é o resultado do que tenha realizado na vida terrena. O estado de consciência em que tenha deixado este mundo será o estado em que se encontrará ao adentrar a dimensão do Barzakh (limbo).

Diz Allah no Alcorão: “… E ANTE ELES HAVERÁ UMA BARREIRA QUE OS DETERÁ ATÉ O DIA EM QUE FOREM RESSUCITADOS”. (23: 99 e 100)

BARZAKH é a denominação desta dimensão intermediária, desta nova realidade que se revela com a morte física. Nesta nova realidade, além dos limites físicos, a natureza e os valores das coisas são inteiramente diversos a este mundo. Nesta dimensão que antecede o Akhirah impera a escuridão e toda luz que pode ser conduzida para lá é a resultante do IMAN (FÉ) e das ações consoantes a ele que o humano realizou neste mundo. Se este Imán (fé) no momento da morte estiver firmemente estabelecido no coração, e se for fundamentado no que Allah revelou (FÉ MONOTEÍSTA) e no conhecimento quanto a profecia (conhecimento do último profeta enviado a humanidade) e baseado em ações dignas e consoantes a Lei Divina, este Imán será a luz de seu portador nas sombras do Barzakh. A intensidade desta luz corresponderá ao grau de consciência e de integridade desta fé.

Um sábio dentre os Sufyyah escreveu que existem 5 espécies de escuridão e para cada uma delas há uma luz específica: “A escuridão do amor mundano, a luz para isto é o temor, a PIEDADE (TEMOR A ALLAH), a escuridão do pecado, a luz para isto é o arrependimento, a escuridão do Qabr (túmulo), a luz para isso é o kalima sagrado (axhadu an la iláha illa llah wa axhadu anna Mohammad rasulullah ), o além é escuridão, a luz para ela são as boas ações, o Sirat (ponte sobre o inferno) é escuridão, a luz para ela é o Imán (fé)”. Decerto que um Imán (fé) que não seja forte o bastante para fazer o seu portador estabelecer o Sallah corretamente sem negligenciar o seu tempo correto, cumprir o zakat, consagrar o Jejum de Ramadã, abster-se do ilícito e empenhar-se no bem e na caridade, não será luz suficiente para o momento da morte e a escuridão do além. Mesmo no instante da morte, a força do Imán se manifestará ou não, segundo o modo como foi conduzido no decorrer da vida e certamente uma fé que não tenha sido forte durante a vida neste mundo, não o será também no momento final. De fato, este processo de desenlace depende do grau de consciência adquirido em vida, da qualidade da fé e do estado espiritual da pessoa. A intensidade do sofrimento e da dificuldade no momento da morte é definida por esses fatores.

Evidencia o Alcorão: “ELE É O SOBERANO ABSOLUTO SOBRE SEUS SERVOS E ENVIA ANJOS CUSTÓDIOS ATÉ QUE A MORTE CHEGUE A ALGUM DE VÓS, ENTÃO NOSSOS MENSAGEIROS ANGELICAIS RECOLHEM A ALMA, SEM DESCUIDAR-SE DE NADA.” (6: 61)

E ainda: “QUANDO ALCANÇA (A ALMA) A GARGANTA E VÓS ENTÃO FICAIS PERPLEXOS A OLHAR E AINDA QUE NÃO NOS VEJAIS, ESTAMOS MAIS PERTO DELE QUE VÓS…” (56: 83 e 84)

A alma é retirada pelos anjos e quando o corpo desce ao túmulo inicia-se um interrogatório em que é inquirida sobre ALLAH, O DÍN, O MENSAGEIRO DE ALLAH, O LIVRO (ALCORÃO) E O IMAM DE SUA ÉPOCA. O muçulmano virtuoso que tenha deixado o mundo com uma fé íntegra terá lucidez para responder satisfatoriamente estas questões. O descrente, o que tenha morrido em estado de ignorância, o hipócrita, o muçulmano que tenha cometido pecados graves sem ter se arrependido ou que tenha negligenciado suas obrigações para com ALLAH, se encontrarão em profundo embaraço e não conseguirão responder a estas questões. Deste interrogatório resultará a condição em que a alma se encontrará até o Dia do Juízo, se em paz e bem-aventurança ou em sofrimento, aflição e trevas.

QABR (túmulo) é uma denominação genérica, não apenas um lugar físico como em nossa dimensão. Mesmo no caso de um corpo cremado, desaparecido nas águas, despedaçado por feras a alma ocupa um lugar no Barzakh ao qual denominamos Qabr e sua capacidade de compreensão e seus sentidos permanecem. Como uma criança que ao nascer pouco compreende do que está a sua volta, a alma tem um período variável de entorpecimento próprio do processo de transição (o modo como a morte se opera possui considerável influência nesse processo). Nesta dimensão intermediária, o alcance da percepção das almas varia tanto quanto os estados de sono e a natureza dos sonhos do seres humanos nesta vida. Com os sentidos permanecem as sensações de prazer e dor, calma e desespero, calor e frio. Os que deixaram este mundo com um Imán (fé) sincero e correto e deixaram para trás ações condignas, gozarão de serenidade e luz, os que morreram desprovidos de fé ou com uma fé equivocada ou com transgressões graves sofrerão as terríveis aflições do Qabr e serão oprimidos pela escuridão.

Estágios de consciência ou estágios de inconsciência espiritual, forte condicionamentos e expectativas na vida física, apegos a idéias ou sensações vividas, elos mentais ou emocionais, presença ou não, no coração espiritual de uma pessoa, de energia espiritual proveniente da oração ou do Dhikr (recordação de Allah), esses e muitos outros elementos determinam o estado em que as almas se encontram nesta dimensão.

Evidencia o Alcorão: “ALLAH DARÁ FIRMEZA AOS QUE CRÊEM COM A PALAVRA FIRME, NESTE MUNDO E NA VIDA FUTURA.” (14: 27)

Os que crêem e buscam sinceramente obedecer a ALLAH são cobertos pela misericórdia divina e protegidos dos tormentos. Nas tradições atribuídas ao Profeta (saas) consta que o Imán, o Sallah, o Jejum, o Zakat, o Dhikr, a recitação do Alcorão e todas as boas ações do Muçulmano tornam-se seus guardiões no Qabr.

Se em linhas gerais, é possível traçar um quadro dessa realidade metafísica, é muito difícil definir com precisão os múltiplos estados possíveis em que os que deixam este mundo se encontram na dimensão do Barzakh. A multiplicidade de fatores que determinam estes estados também não podem ser de todo compreendidos. Tal conhecimento, em muitos de seus aspectos, está além da compreensão comum da grande maioria de nós. O que podemos ter em mente como uma idéia suficientemente adequada é que a realidade metafísica possui uma natureza que foge dos limites que conhecemos do tempo e do espaço, e que as sensações oníricas (os estados de sono e o que conhecemos como sonhos) se assemelham a algo da realidade metafísica existente no Barzakh.

Falsas Noções Sobre a Vida após a Morte

As questões até aqui abordadas em todos os tempos suscitaram a inquietação e inumeráveis teorias entre os seres humanos. Muito embora Allah tenha concedido o Conhecimento correto a seus Mensageiros para que orientassem os povos sobre todas as questões da vida humana, a humanidade na maioria das vezes negligenciou a orientação divina e abraçou crenças forjadas e teorias sem fundamento sobre esses temas. Desde o início dos tempos Xaitan e seus seguidores dentre os gênios e os humanos propagaram falsas concepções e crenças que com o decorrer do tempo imprimiram-se fortemente em todas as sociedades, distorcendo mesmo o conhecimento revelado. As principais falsidades propagadas sobre o além foram a teoria da reencarnação e a crença em uma possível comunicação com os mortos; ambas, de origem pagã. A teoria da reencarnação advoga que a alma ao deixar este mundo retorna a ele em outro corpo, tal processo se repetiria sucessivas vezes, o que alguns dos que defendem esta teoria justificam como sendo um processo de evolução da alma. Esta crença tornou-se comum entre os povos antigos à medida que se afastaram do MONOTEÍSMO original e caíram na ignorância espiritual, na idolatria e nas práticas mágicas. Esta teoria se opõe a MENSAGEM DOS PROFETAS (o DÍN), pois todos os mensageiros de Allah e todas as escrituras divinamente reveladas afirmam claramente que: Allah decretou ao homem uma vida terrena, a morte física, a ressurreição no dia do Juízo, o julgamento e o destino eterno (akhirah) seja no paraíso ou no inferno. A teoria da reencarnação por sua vez desmente os profetas de ALLAH, tenta ludibriar o homem quanto a realidade do Akhirah, dando-lhe falsas esperanças e desviando-o da Orientação Divina.

Nos últimos 150 anos, os defensores da reencarnação no ocidente têm tentado sem sucesso, provar a veracidade de sua crença se apoiando em pesquisas científicas. O fato, porém, é que nenhum cientista sério jamais corroborou tal teoria, o que alguns tentam justificar como provas de reencarnação é na verdade a constatação de uma outra teoria amplamente aceita pela ciência que é a herança genética. Os avanços das pesquisas sobre herança genética tendem a desmascarar as pretensões dos defensores da reencarnação.

Quanto a crença numa possível comunicação com as almas dos mortos, também se originou do ideário pagão nos tempos antigos e incorporou-se a crença popular européia no final do séc. XIX sob o nome de Kardecismo. O fundador deste movimento buscou revestir as antigas práticas pagãs de um caráter cristão, entretanto NEM NAS ESCRITURAS E NEM NOS DIZERES ATRIBUÍDOS A JESUS OU A QUALQUER OUTRO PROFETA É POSSÍVEL ENCONTRAR QUALQUER APOIO A ESSA CRENÇA. Na verdade nenhum dos autênticos mensageiros de ALLAH jamais praticou ou recomendou qualquer prática desse tipo. Mas a questão é: podem os mortos se comunicar com os vivos? No Barzakh, a alma pode ouvir e mesmo ver (se lhe for permitido) tudo o que provém do mundo terreno. Em variados níveis de consciência a alma pode estar ciente do estado em que se encontram seus parentes no mundo físico. Porém, a alma não pode transpor os limites da dimensão em que se encontra. O que explica os inúmeros e corriqueiros fenômenos de suposta comunicação e que tais fenômenos são operados não pelas almas dos mortos, mas sim, pelos gênios a serviço de Xaitan que utilizam este estratagema para ludibriar e manipular os humanos neste mundo. Esses seres fazem uso de seus poderes de mistificação para se fazerem passar por pessoas já falecidas. Nas tradições consta que o Mensageiro de Allah tenha dito: “Todo humano desde o seu nascimento tem a acompanhá-lo um gênio maligno (a serviço de Xaitan) que conhece todos os seus segredos, pois circula nele como o sangue em suas veias”. Com a morte dessa pessoa, Xaitan eventualmente usa desse artifício para iludir e criar falsas esperanças nos demais usando o que conhece acerca do falecido, pois sua missão e objetivo é desviar e forjar falsas crenças sobre o invisível e o Din. Ganhando a confiança dos incautos, ele propaga crenças como a reencarnação, a inexistência do dia do Juízo, do paraíso e do inferno, fazendo com que desmintam Allah e seus profetas. É precisamente esta oposição ao que foi revelado por Allah a seus profetas e mensageiros o objetivo de Xaitan na propagação dessas falsas crenças. Com efeito, ao negar o dia do juízo, a ressurreição e a existência do paraíso e do inferno os que adotam crenças como o espiritismo se tornam descrentes renegando a Verdade revelada trazida por todos os profetas (as).

Ademais, a própria razão para uma suposta comunicação entre os vivos e os mortos levanta uma questão: se a verdade e a orientação divina fosse comunicada por esse meio, então afinal, para que Allah teria enviado os profetas e mensageiros para viverem como homens entre os homens, enfrentarem todo o tipo de vicissitudes e perseguições?

Decididamente não há como harmonizar a Mensagem revelada aos profetas com a doutrina espírita. Em alguns casos, Xaitan opera curas e previsões para sustentar a autenticidade de tais fenômenos, iludindo multidões. Algumas dessas manifestações nada mais são do que estados alterados da consciência humana (transes) em que o inconsciente individual do médium entra em contato com o inconsciente coletivo (onde estão registradas as impressões mentais e metafísicas). Em nenhum dos dois casos há de fato uma comunicação com as almas dos mortos. Tais fenômenos nada mais são do que a habilidade de Xaitan em iludir o ser humano. Para por fim, induzi-lo a morrer num estado de descrença e ignorância da realidade espiritual. Consequentemente, aquele que deixa este mundo com essas crenças será considerado no mundo vindouro e no dia do juízo como um descrente, um seguidor de Xaitan e como tal, suas obras serão reduzidas a nada e será atirado no inferno.

Diz o Altíssimo no Alcorão: “DIZE-LHES: QUEREIS QUE VOS INTEIRE DE QUEM SÃO OS MAIS DESMERECEDORES POR SUAS OBRAS? SÃO AQUELES CUJOS ESFORÇOS SE DESVANECERAM NA VIDA TERRENA, NÃO OBSTANTE CREREM TER PRATICADO O BEM. ESTES SÃO OS QUE RENEGARAM OS VERSÍCULOS DE SEU SENHOR E O COMPARECIMENTO ANTE ELE; ASSIM SUAS OBRAS TORNARAM-SE NULAS E NÃO LHES RECONHECEREMOS MÉRITO ALGUM NO DIA DA RESSURREIÇÃO. SUA MORADA SERÁ O INFERNO POR SUA DESCRENÇA E POR TEREM ESCARNECIDO MEUS VERSÍCULOS E MEUS MENSAGEIROS”. (18:103 a 106)

Palavras Finais

Diz Allah, O Poderoso, no Alcorão: “AQUELES QUE NÃO ESPERAM NOSSO ENCONTRO APRAZEM-SE COM A VIDA TERRENA CONFORMANDO-SE COM ELA E NEGLIGENCIAM NOSSOS VERSÍCULOS”. (10: 7)

Dia após dia, convivemos com a morte a nossa volta. Os noticiários, as catástrofes, a perda de nossos parentes, vizinhos e amigos e de fato, pouco ou quase nada meditamos sobre isso. Em nossa escala de valores e prioridades quase sempre a diversão, o trabalho por nossos bens ocupam os primeiros lugares, ainda que o LIVRO DE ALLAH e os exemplos dos profetas (as) e dos Imames (as) sejam evidências de uma realidade que transcende as nossas medíocres expectativas quanto a esta vida. É relatado nos ahadith que o Mensageiro de Allah (saas) tenha dito: “Os sensatos e os nobres são os que mais recordam a morte e estão constantemente a preparar-se para o seu encontro”. Cada novo dia é uma preciosa oportunidade para que nos empenhemos nas boas ações, para que nos examinemos cuidadosamente a fim de rejeitar as más inclinações e nos aproximarmos dos princípios do Din. Queira Allah que este modesto trabalho seja de valia aos muçulmanos e muçulmanas nesse sentido, para que fortaleçam seu din em busca das melhores recompensas nesta vida e na vida futura”.

Allahuma Salli Ala Mohammad Wa Ali Mohammad.

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