As condições da recomendação do bem e proibição do mal

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Deus o Altíssimo disse: “Ó filho meu, observa a oração, recomenda o bem, proíbe o ilícito e sofre pacientemente tudo quanto te suceda, porque isto é firmeza (de propósito na condução) dos assuntos”. (31:17)

Os princípios da recomendação do bem e coibição do mal são obrigações sobre o muçulmano. Estes dois princípios deverão ser praticados por qualquer um dos muçulmanos sempre. Mas há algumas condições que são importantes que o muçulmano leve em consideração antes de cumprir este dever.

Primeiro: Conhecer

É extremamente importante que a pessoa antes de cumprir este dever saiba o que é o bem e o que é o mal, pois senão ele não poderá cumprir sua obrigação ou irá falha ao cumpri-la. Conhecer quais são os elementos religiosamente classificados com bons, conhecer as obrigações religiosas para recomendá-lo, e ao mesmo tempo conhecer os elementos religiosamente classificados como parte do mal para coibi-los. Isso é uma questão lógica, pois o juiz precisa conhecer a legislação e as leis para poder julgar um processo, do contrário seu julgamento será falho.

Segundo: Efeito possível

A pessoa deve analisar a situação e pelo menos possibilitar a mudança e o cumprimento daquilo que irá recomendar ou coibir. Caso haja esta possibilidade, mesmo se for por uma mínima condição, ela deve cumprir. Caso não haja a possibilidade de suas recomendações serem adotadas então ela não é obrigada a cumprir aquilo.

Terceiro: Não haver danos

Mais uma das condições que são necessárias antes de cumprir o dever de recomendar o bem e coibir o mal é que ao ser cumprido não haja danos para a pessoa. Ou seja, se aquele ato levar a consequências negativas ou possíveis danos insuportáveis como perseguição de todos os tipos, prisão, tortura ou até mesmo morte, a pessoa não é obrigada a efetuar a recomendação do bem e nem a coibição do mal, e deve preservar sua vida.

Quando e onde?

Os princípios de recomendação do bem e coibição do mal não são dois princípios a serem praticados apenas perante as obrigações religiosas ou individualmente. Na verdade a história e a tradição do Profeta Mohammad (S.A.A.S.) e dos Imames (A.S.) nos relatam que estes princípios devem nos acompanhar em todas as nossas etapas de vida, e, portanto, sempre o muçulmano deve cumprir sua obrigação de recomendar o bem e coibir o mal, em todos os campos como política, economia, sociedade, educação, meio ambiente e etc… Toda e qualquer recomendação ao bem que possa levar ao benefício social, seja lá qual for o seu campo, deve ser cumprida, e toda e qualquer questão do mal deve ser coibida, seja lá qual for o campo que ela exista.

Sacrifícios por estes princípios

Na época do Imam Al-Hussein (A.S.), filho de Ali (A.S.), ao ver que o governante da época, Yazid ibn Mu´awiyah, estava praticando o ilícito e julgando com base na injustiça, sendo um governante corrupto e opressor que matava as pessoas, o Imam (A.S.) partiu para a reforma e cumpriu seu dever perante Deus ao recomendar o bem e coibir o mal. Ele dizia: “…Yazid é um homem pecador, drogado, assassino de inocentes, e tudo isso em público… E por isso alguém como eu jamais declarar lealdade a alguém como ele…”. Aqui é possível vermos o que fez o Imam (A.S.) tomar esta decisão e declarar sua oposição a Yazid. Seu objetivo era uma reforma política. Ele foi na raiz do mal.

Além disso, na época algo muito grandioso estava em risco de extinção. Era o Islam, com todos os seus ensinamentos e doutrina. Sendo assim, qualquer pessoa deve priorizar entre o importante e o mais importante e se sacrificar sendo paciente, pois é isso que acontece ao cumprirmos os princípios da recomendação do bem e coibição do mal. O Imam Hussein (A.S.) priorizou o Islam sobre a sua vida. Com seu sacrifício ele acendeu uma chama, ele alertou a população e as pessoas sobre o caminho que estavam seguindo e o risco daquele caminho. A nação se tocou e se alertou, e aquela chama fez todos procurarem saber por que Hussein (A.S.) se rebelou, por que ele não aceitou declarar lealdade ao governante da época e por que ele foi assassinado.

Como recomendar o bem e coibir o mal?

É muito errado acharmos que o princípio de recomendarmos o bem e coibirmos o mal é uma obrigação exclusiva dos líderes religiosos ou de uma categoria especifica da sociedade. Estas duas obrigações são deveres de todos, sem nenhuma exceção. Seus meios são diversos e com o passar do tempo estes meios e formas acabam se atualizando de acordo com a evolução tecnológica e social, e vão desde cumprir esta obrigação pessoalmente ou a por exemplo não participar em um evento onde há bebidas e coisas ilícitas, como também simplesmente curtir um post nas redes sociais ou compartilhar uma mensagem. Estes simples atos do nosso dia a dia podem ser classificados como recomendações do bem e coibição do mal. Portanto, vejam quanto responsabilidade temos ao simplesmente curtir o compartilhar algo, já que temos que analisar antes se aquilo irá ser benéfico ou maléfico para a sociedade. É assim que o Islam nos ensina e educa, com base na responsabilidade social, indiferentemente do tamanho do ato.

Além disso devemos saber como e com que linguagem recomendamos o bem e coibimos o mal. Deus o Altíssimo disse: “…Convoca (os humanos) à senda do teu Senhor com sabedoria e uma bela exortação…” (16:125). Ou seja, nossa obrigação é sempre escolher a melhor palavra, melhor forma, melhor meio e melhor maneira para propagarmos o bem. Isso vale também para a proibição do mal. Ou seja, se formos evitar alguém de fazer alguma coisa errada deveremos cumprir isso da melhor maneira e das formas mais gentis e amigáveis possível, e assim até esgotarem todas as nossas tentativas e meios. O Profeta Mohammad (S.A.A.S.) dizia: “A recomendação do bem e a coibição do mal só são cumpridos das seguintes maneiras: gentil na forma que recomendamos e gentil na forma que coibimos”. Ou seja, tanto em um como no outro devemos ser gentis, cuidadosos, sábios e educados com as pessoas, para recomendar o bem e para coibir o mal. Na verdade, a mudança muitas vezes depende disso. Ou seja, se a pessoa for grossa ao recomendar o bem e coibir o mal a reação da outra pessoa pode ser revoltante e contrário àquilo que se espera.

Situações extremas

O Imam Al-Hussein (A.S.) ao cumprir seu dever não partiu logo para a batalha, antes disso discursou, escreveu cartas, explicou os motivos de sua revolta, tentou de todas as maneiras, mas infelizmente ao esgotar todos meios da recomendação do bem e coibição do mal ele partiu para o meio mais extremos que foi a batalha, e ele morreu cumprindo seu dever.

Por onde começar?

Primeiro: Consigo mesmo

Antes de mais nada a pessoa deve praticar aquilo que recomenda e não praticar aquilo que coibi. Deus o Altíssimo disse no Alcorão Sagrado: “Ó fiéis, por que dizeis o que não fazeis? (2) É enormemente odioso, perante Deus, dizerdes o que não fazeis (3)” (61). O que adianta recomendarmos o bem para os próximos e nós mesmos não cumprirmos ou coibirmos o mal que nós mesmos praticamos em nossa vida. Este é um dos significados do versículo acima, algo de extrema importância.

Segundo: Sua família e parentes

Em segundo lugar vem os familiares e os parentes. Somos obrigados a orientá-los e a cuidarmos deles, pois Deus o Altíssimo diz no Alcorão Sagrado: “Ó fiéis, precavei-vos, juntamente com as vossas famílias, do fogo, cujo alimento serão os homens e as pedras, o qual é guardado por anjos inflexíveis e severos, que jamais desobedecem às ordens que recebem de Deus, mas executam tudo quanto lhes é imposto” (66:6). Somos responsáveis por nossos filhos, parentes e familiares. Seremos cobrados no dia do juízo final por termos cumprido ou não nossas obrigações perante eles, pois nossas ações irão protegê-los ou não do fogo do inferno.

Terceiro: O próximo

As pessoas ao nosso redor. Aqueles que temos contato, amigos, colegas de trabalho, funcionários, vizinhos ou simplesmente conhecidos, todos que estão ao nosso redor. O Imam Assadeq (A.S.) dizia: “Não é um de nós aquele que não exceder no conselho”. Ou seja, é da obrigação de um verdadeiro seguidor dos Ahlul Bait (A.S.) aconselhar no que é certo e evitar o que é mal, e não basta apenas dizer uma palavra e sair andando alegando que cumpriu seu dever. Não, isso não está certo, pois dependendo do caso a pessoa deve insistir e falar diversas vezes para os próximos sobre um certo conselho, o que também é enquadrado na recomendação do bem e coibição do mal.

Quarto: Sociedade

A sociedade também é onde temos que cumprir nosso dever. Qualquer gesto, qualquer ato, pode ser recomendado ou coibido. Com todos os meios possíveis, campanhas, sites, redes sociais, mídia como um todo, visitas, todo e qualquer ato ou gesto que pode levar a um possível avanço das condições sociais é bem-vindo e visto como um dever de todos nós. Promover o bem e impedir o mal é algo que deve sim se estender pelos variados cantos da sociedade, para assim mudarmos nossas condições para melhor.

Os graus

Com o coração

Os princípios de recomendar o bem e coibir o mal devem ser algo praticado em etapas. Sendo que o primeiro grau é o mínimo, que é rejeitar o mal em seu coração. A expressão de nossas faces ao se deparar com o bem ou o mal demais seria uma das formas mais simples de recomendar o bem e coibir o mal. O Imam Ali (A.S.) dizia: “Profeta Mohammad (S.A.A.S.) nos mandava olhar para os pecadores com rostos fechados e antipáticos”.

Com a língua

Aqui não se refere apenas à língua em si ou ao que se fala, e sim a expressão em todas as suas formas. Pode ser por meio da escrita, uma faixa, um site, livro, uma peça de teatro, um artigo, revista, um blog, um post, um pôster, enfim, todo e qualquer meio que pode ser uma forma de expressão e que possa ser benéfico para a sociedade. Este é o segundo grau e classe da recomendação do bem e coibição do mal.

Com a prática

Esta já é a terceira classe e a última na execução dos princípios da recomendação do bem e coibição do mal, e é aqui que a revolução do Imam Hussein (A.S.) se encaixa, depois que se esgotaram todas as anteriores. Hussein (A.S.) dizia: “Será que não veem que a verdade não está sendo praticada e a mentira não está sendo coibida?”.

Portanto, queridos irmãos, um muçulmano de assumir sua responsabilidade e nunca se livrar dela. Jamais é aceita a frase: “E eu com isso?”. Esta expressão não faz parte da vida do muçulmano, pois no fim tudo ao seu redor terá consequências sobre ele e sua família, e se ele não se importar então o mal pouco a pouco irá prevalecer e o bem irá ser apagado lentamente.

Aula ministrada por Nasser Khazraji
Data: 08/09/2019

 

 

 

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