30 set, 2014

Do Livre Arbítrio e da Predestinação à Luz do Alcorão

30 set, 2014

Por: Ahmed Ismail

Uma das questões que desde os primeiros tempos originou diferentes abordagens e opiniões entre os juristas, foi a da determinação do que exatamente o Alcorão, A Palavra Divina, comunicava com referência à predestinação.

Com o advento do período em que o exercício do Ijtihad se expandiu, tendências de pensamento conflitantes entre si passaram a defender pareceres opostos: racionalistas propunham que o livre-arbítrio seria inquestionável, enquanto seus opositores ditavam que o Qadar (determinação divina) continha em si todo o mecanismo da predestinação.

No âmbito xiita, as tradições dos Ahlul Bait (A.S.) definiam toda a questão de maneira que pudesse ser compreendida sem dar margem a especulações filosóficas, posição esta que pode ser resumida com o dizer do Imam Jafar Assadeq:

“Nem determinismo nem livre arbítrio (irrestrito), a verdade da questão está entre ambos”.

O que denota a existência de um sutil equilíbrio no qual se manifesta o Qadar divino.

Um outro aspecto peculiar do pensamento dos Imames (A.S.) é que a reflexão sobre o tema não é considerada em si algo proibido como alguns a tomam de maneira equivocada. Na realidade, o que pode ser entendido como vedado é a polêmica e a especulação sobre o tema. Ao reportarmos ao Alcorão encontraremos significativas passagens que apontam para estas duas realidades em justaposição, se bem que uma reflexão se faz necessária para definir um correto entendimento daquilo que Allah deu a conhecer ao homem sobre esta questão.

Diz o Alcorão Sagrado:

“E de quando o teu Senhor extraiu das entranhas do filhos de Adão os seus descendentes e os fez testemunhar contra si próprios, dizendo: Não é verdade que sou o vosso Senhor? Disseram: Sim! Testemunhamo-lo! Fizemos isto com o fim de que no Dia da Ressurreição não dissésseis: Não estávamos cientes”. (7:172)

“Toda a ventura que te ocorra (ó homem) emana de Deus; mas toda a desventura que te açoita provém de ti. Enviamos-te (ó Mohammad) como Mensageiro da humanidade, e Deus é suficiente testemunha disto”. (4: 79)

“A Deus pertence tudo quanto existe nos céus e na terra, para castigar os malévolos, segundo o que tenham cometido, e recompensar os benfeitores com o melhor..” (53 : 31)

Esses três ayát (versículos) exemplificam o fato de que o homem é responsável por suas ações e detém uma considerável parcela de livre-arbítrio, pois sem a qual não poderia ser recompensado nem castigado. Se aceitássemos como verdadeira a opinião dos que negam inteiramente o livre-arbítrio, o homem seria um mero marionete incapaz de agir e escolher o que quer que fosse, logo, todo o sentido da mensagem divina se anularia.

Em vários outros ayat se evidencia que o homem é o elemento agente de suas escolhas e ações.

Entretanto o mecanismo da predestinação não se restringe a isso. O homem como todas as demais criaturas é parte integrante do cosmos, e como tal encontra-se submetido às leis que regem o universo, leis estabelecidas por seu Criador; que de modo inevitável regem certos fenômenos que estão além do âmbito de ação do homem. Como leis universais, são igualmente imutáveis e este é um aspecto fundamental do Qadar, pelo qual podemos afirmar que o Decreto Divino define a origem, a natureza e o fim das coisas, a constituição, a forma dos seres e a propriedade dos elementos que compõem o universo.

Assim evidencia o Alcorão:

“Glorifica o nome do teu Senhor, o Altíssimo, Que criou e aperfeiçoou tudo; Que tudo predestinou e encaminho…” (87 1 A 3)

“E o agraciará, de onde menos esperar. Quanto àquele que se encomendar a Deus, saiba que Ele será Suficiente, porque Deus cumpre o que promete. Certamente Deus predestinou uma proporção para cada coisa..” ( 65: 3)

Inserido neste contexto cósmico, é evidente que o homem está submetido a inúmeros fatores e manifestações da determinação divina, há similarmente um grupo de ayát que evidenciam o decreto divino sobre o destino das criaturas:

“Em verdade, Deus possui o conhecimento da Hora, faz descer a chuva e conhece o que encerram os ventres maternos. Nenhum ser saber o que ganhará amanhã, tampouco nenhum ser saberá em que terra morrerá, porque (só) Deus é Sapiente, Inteiradíssimo!” (31: 34)

“Em verdade, aqueles a quem predestinamos o Nossos bem, serão afastados disso”. (21: 101)

“Aqueles a quem Deus desviar (por tal merecerem) ninguém poderá encaminhar, porque Ele os abandonará, vacilantes, em sua transgressão.” (7 : 186)

Estes e outros ayát que tratam do decreto divino sobre a vida e o destino humano tem sido citados pelos que propõem o determinismo absoluto.

Todavia, a análise dos defensores desta opinião se demonstra incompleta, pois é absolutamente necessário tomarmos um terceiro grupo de ayát que nos informam um outro importante ponto da predestinação divina: as razões (ligadas a justiça de Allah) que conduzem o seu veredicto sobre suas criaturas:

“Teu Senhor conhece tanto o que dissimulam os seus corações como o que manifestam (as suas bocas)”. (28 : 69)

O que se depreende destes ayát é que Allah, o Supremo conhecedor de todas as coisas, do passado e do futuro de todas as coisas, ao criar a alma já é perfeitamente ciente de tudo sobre ela (de suas ações futuras) e fundamentado nesta ciência absoluta decreta o seu destino final. Não se diz com isso que Allah não dê o livre-arbítrio ao homem, se diz que Ele em sua sabedoria absoluta, conhece o modo como cada criatura usará seu livre-arbítrio, o que carregará em seu coração, se a crença ou a descrença, o bem ou o mal, se se arrependerá de seus pecados ou não. Se merecerá a orientação para a senda reta, ou se merecerá ser desviado. De nenhum modo se diz que Allah retire do homem a escolha que possa levá-lo seja ao bem ou ao mal.

Nenhum dos aspectos da determinação divina que cercam o homem neste mundo (os fatores hereditários, o lugar onde nasceu, a família a que pertence, as características naturais que recebeu, a provisão destinada a ele, o tempo de vida na terra,etc.) são decisivos no Qadar relativo a seu destino final, apenas o exercício de sua liberdade de ação e escolha.
E no exercício dessa faculdade no decorrer de sua vida o homem pode granjear a misericórdia divina ou ser afastado dela, evidencia o Alcorão:

“Porém, àquele que dá (em caridade e é temente a Deus, E crê no melhor, Facilitaremos o caminho do conforto. Porém, àquele que mesquinhar e se considerar suficiente, E negar o melhor, Facilitaremos o caminho da adversidade”. (92 : 5 a 10)

“E Deus aumentará os orientados na orientação. As boas ações, as perduráveis, são mais meritórias e mais apreciáveis aos olhos do teu Senhor.” (19: 76)

Este é um fator preponderante no mecanismo da predestinação: o homem conta com sua liberdade de escolha e ação, porém a capacidade de realização não pertence a ele, esta provém unicamente de Allah. Sem a permissão divina nada se concretiza, nem para o bem nem para o mal, assim se um homem que cujo coração é puro em sua intenção e por isso alcança misericórdia perante Allah, a senda das boas ações lhe será facilitada e a senda da perdição será afastada dele, enquanto que aquele que tem seu íntimo dominado pela descrença, o mal e o orgulho, lhe será abrilhantada a senda da perdição e lhe será afastada a senda divina da salvação. Os seguintes ayát evidenciam essa realidade:

“A quem Deus quer iluminar, dilata-lhe o peito para o Islam; a quem quer desviar (por tal merecer), oprime-lhe o peito, como aquele que se eleva na atmosfera. Assim, Deus cobre de abominação aqueles que se negam a crer”. (6: 125)

“Afastarei dos Meus versículos aqueles que se envaidecem sem razão, na terra e, mesmo quando virem todo o sinal, nele não crerão; e, mesmo quando virem a senda da retidão, não a adotarão por guia. Em troca, se virem a senda do erro, tomá-la-ão por guia. Isso porque rejeitaram os Nossos sinais e os negligenciaram”. (7 : 146)

Em qualquer dos casos, seja para a salvação ou a perdição do homem em seu destino final, Allah baseia o seu decreto no exercício de seu livre-arbítrio, conhecendo na plenitude o estado em que deixará este mundo, na profundidade de seu íntimo e quais serão as ações que mais pesarão em seu registro.

Um outro equívoco resultante do determinismo é a atitude do homem de entregar-se a um conformismo diante do que entende como um destino pré-fixado. Esta atitude o arrasta à perigosa posição de justificar sua fraqueza e a ausência de determinação e luta para melhorar-se confiando sua responsabilidade ao destino. Os que assim agem, com freqüência atribuem as conseqüências de seus erros e omissões à “vontade divina”.

Ao homem não é dado conhecer o mecanismo da predestinação desencadeado sobre os fenômenos, logo, nenhum homem pode dizer “isto é o destino ou a vontade divina” sob pena de estar falando algo que não conhece sobre Allah, o que o Alcorão proíbe. Podemos dizer que Allah tenha permitido que algo acontecesse (pois nada acontece sem a sua permissão) mas não que tenha sido sua vontade, porque isto pertence ao invisível e ao oculto que só ELE conhece.

Muitos dos fatos que ocorrem na vida de uma pessoa, são meros efeitos de suas escolhas e ações, (ou como efeito das ações de outros) ora, se um homem adquire uma doença incurável que o leva a morte após levar parte de sua vida cometendo excessos e agressões a seu organismo, poderemos dizer que esta foi a “Vontade divina”? Não. Poderemos dizer que Allah permitiu que ele assim agisse e que as conseqüências de suas ações o alcançassem neste mundo. A morte desse homem foi decretada deste modo (pela doença) por que Allah sabia que ele seria um insensato e que se entregaria a todo tipo de excessos e que provocaria sua própria morte desta maneira.

A maior negação ao determinismo extremado se encontra no próprio Din que nos orienta a buscar sempre o melhor, a utilizarmos de nosso intelecto e de todos os demais recursos que nos tenham sido dados para nos esforçarmos em busca dos benefícios deste mundo e do outro e jamais abdicarmos de nossa razão.

O ceder a imprudência sob o pretexto de um improvável “tudo está predestinado” é o modo mais vulgar de se abdicar da razão e agir nesciamente. Tal atitude não encontra base alguma no Din, e não pode ser definida de outra maneira senão como estupidez voluntária.

Nas tradições, consta que uma vez Imam Ali (A.S.) estava descansando a sombra de uma parede que parecia estar prestes a desabar. De repente se levantou e foi se sentar à sombra de uma árvore. Um homem perguntou: “Estás escapando do que Allah te destinou?” Respondeu: “Estou me refugiando no poder de Allah daquilo que me tenha destinado, ou seja, estou indo de um destino a outro, o sentar-me e o levantar-me estão igualmente sujeitos ao destino. Se a parede cai sobre mim e eu me firo, isto será predestinação e destino, e se saio da zona de perigo e escapo do mal também será predestinação e destino”.

Há um hadith atribuído ao Profeta (S.A.A.S.) que diz que certa vez foi perguntado se a medicina e a magia poderiam alterar o Qadar (Decreto Divino) e o Mensageiro (S.A.A.S.) disse: “Estes fazem parte do Qadar”. Deixando claro que qualquer benefício ou malefício só se torna efetivo com a permissão Divina.

Ao homem, porém, a quem não é dado o conhecimento do invisível, é requerido que haja com empenho na busca do melhor, que adote precauções, que diante de uma doença busque o tratamento que lhe pareça melhor, enfim, que use a razão nos assuntos de sua vida e não se omita de fazê-lo com base em suposições infundadas acerca da predestinação divina.

Muito embora qualquer benefício ou malefício só alcancem o homem com o conhecimento e a permissão de Allah, é obrigatório para o homem esforçar-se na busca do primeiro e no afastamento do segundo, com todos os recursos que estejam a seu alcance e manter sua confiança em Allah em todas as circunstâncias.

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